LONDRES - Uma matéria
publicada nesta terça-feira, 31, no jornal Washington
Post afirma que, depois da pecuária e do plantio de
soja, outra atividade está causando a destruição
do cerrado brasileiro: o plantio de cana-de-açúcar
para a fabricação de etanol.
Em reportagem intitulada "Perdendo a floresta para abastecer
carros", o diário americano diz que nos últimos
40 anos o cerrado perdeu metade de sua área em conseqüência
dessas atividades.
Um analista da fundação Conservation International,
baseada nos EUA, disse ao jornal que a taxa de desflorestamento
do cerrado é mais alta que da Amazônia, e que
se o ritmo for mantido toda a vegetação que
caracteriza o centro-oeste do país poderia desaparecer
até 2030.
"O governo brasileiro e grandes companhias de agronegócio
dizem que a expansão da soja e da cana-de-açúcar
não necessariamente significa devastação
do cerrado, onde vivem cerca de 160 mil espécies de
animais, muitos em perigo de extinção",
diz o Post.
"Eles dizem que plantam em terras degradadas e pastos
abandonados, melhorando a qualidade e a produtividade do solo."
"Mas grupos ambientais argumentam que, à medida
que a soja e a cana-de-açúcar substituem a pecuária
e colheitas menos lucrativas, os fazendeiros penetram em áreas
virgens do cerrado."
Demanda
O jornal lembra que tanto a soja quanto a cana-de-açúcar
para o etanol são produtos fundamentais na pauta agrícola
brasileira. A produção de ambos os produtos
no Brasil tende a crescer para suprir a demanda dos EUA, diz
a reportagem.
No início deste ano, o presidente americano, George
W. Bush, anunciou que até 2022 pretende elevar para
36 bilhões de galões por ano a demanda americana
por etanol, seis vezes mais que o volume que pode ser refinado
nos EUA.
Um porta-voz da empresa de agronegócio Bunge disse
ao jornal que, "se os EUA iniciarem uma corrida em direção
ao (plantio de) etanol, os preços da soja tendem a
subir, e a demanda será coberta pelo Brasil".
O porta-voz disse ainda que, com amplas áreas de plantio
ainda disponíveis, o Brasil poderia ver sua produção
de soja dobrar em três ou quatro anos.
"O cerrado é perfeito para a agricultura, e
será usado (se houver demanda) - não há
dúvida em relação a isso", disse
o porta-voz da Bunge, segundo o Post.
Em outra reportagem sobre o meio ambiente no Brasil, o The
New York Times afirma que o Brasil está "alarmado"
com indicadores de que a mudança climática já
causa efeitos na Amazônia, e que por isso o governo
Lula já demonstra flexibilidade nas negociações
internacionais sobre o tema.
Tradicionalmente "desconfiado do envolvimento estrangeiro
em sua gerência da Amazônia, que enxerga como
um problema doméstico", o país passa a
encarar com mais simpatia mecanismos de mercado que poderiam
evitar o desflorestamento, diz o correspondente do jornal.
Para o governo brasileiro, a alternativa mais palatável
para evitar a perda da área de floresta seria um mecanismo
em que doações fossem feitas a um fundo administrado
em Brasília.
Mas potenciais doadores mencionados em anonimato pelo jornal
"preocupam-se com o desperdício e a ineficiência",
e temem que seu dinheiro acabe indo parar em um "saco
sem fundo".
Uma seca na Amazônia, que levantou temores em relação
à capacidade agrícola do país, e a ocorrência
de um furacão no sul do país estão fazendo
o Brasil mudar de idéia aos poucos.
"Negociadores e observadores que acompanham as negociações
internacionais sobre clima dizem que o Brasil agora está
disposto a discutir assuntos que recentemente considerava
fora da mesa."
Entre as propostas estariam programas de orientação
mercadológica para reduzir as emissões de carbono
resultantes de devastação em larga escala na
Amazônia.
De acordo com o jornal, cada vez mais os brasileiros deixam
de ver o aquecimento global como um "problema distante",
encarando-o como algo que "os afeta".
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