| Celso
Ming
Na sua edição de ontem, o New York
Times publicou matéria com este título: "Precisamos
de proteína, não de biocombustíveis" (We
Need Protein, Not Biofuels).
A escalada dos preços da comida está
aumentando a fervura política. O Banco Mundial já
avisou que a escassez de alimentos empurrou 44 milhões de
pessoas para abaixo da linha de pobreza. O presidente da França,
Nicolas Sarkozy, na condição de presidente rotativo
do Grupo dos 20 (G-20) países mais ricos do mundo, quer intervenção
para garantir a segurança alimentar.
Por enquanto, Sarkozy e os críticos ainda
vêm pondo força no diagnóstico errado, o de
que a disparada dos preços está sendo provocada preponderantemente
pela ação dos especuladores financeiros. Mas à
medida que esse argumento vai sendo rebatido - até mesmo
pelo governo brasileiro - duas consequências parecem inevitáveis.
A primeira delas é a maior flexibilização para
desenvolvimento e produção de culturas geneticamente
modificadas (transgênicas), que ainda hoje encontram fortes
resistências na Europa e também aqui no Brasil. A outra
é o crescimento das pressões para proibir o desvio
de grãos e de outros alimentos para a produção
de biocombustíveis.
Os Estados Unidos, por exemplo, canalizam mais
de 100 milhões de toneladas de milho para a produção
de etanol, o suficiente para alimentar 240 milhões de pessoas,
nos cálculos do professor Kenneth Cassmann, da Universidade
de Nebraska, citado em outra matéria do New York Times. A
própria União Europeia usa óleos vegetais (especialmente
de canola e girassol) para a produção de biodiesel.
E o Brasil também tem lá seus fortes
programas de etanol e biodiesel. No ano passado cerca de 335 milhões
de toneladas de cana-de-açúcar foram usadas para a
produção de etanol e mais não foram porque
os próprios usineiros puxaram mais matéria-prima para
suas fábricas de açúcar, cujos preços
saltaram 72% no mercado internacional. Também por aqui 1,9
milhão de toneladas de óleo de soja deixaram de ser
utilizadas na alimentação e foram empregadas na produção
de 2,5 bilhões de litros de biodiesel.
Por enquanto, o Brasil vem defendendo a produção
de biocombustíveis a partir de matéria-prima alimentar
com o argumento de que há espaço para os dois segmentos.
Mas à medida que crescer a escassez de alimentos, maiores
serão as pressões e mais vulnerável ficará
o governo brasileiro.
O crescimento da procura de proteína tanto
vegetal como animal parece inexorável à medida que
cresce a população dos países emergentes que
ascendem à condição de consumidores. Desapareceram
as montanhas de trigo e de manteiga nos países ricos que
caracterizaram os anos de pós-guerra. Esta é uma extraordinária
oportunidade para o Brasil. No entanto, um após o outro,
os governos brasileiros renunciaram a ter uma política agrícola.
A produção vai crescendo, sim, mas na base da inércia,
estimulada apenas pelo que Deus manda, enfrentando custos predatórios
e uma infraestrutura precária e desestimuladora.
CONFIRA
Foi demais
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem surpreendido.
Já vinha puxando seu quase inédito lado fiscalista
ao defender a contenção de despesas. Ontem, reconheceu
que o avanço do consumo de 10% em 2010 "talvez tenha
sido excessivo".
Mais equilíbrio
Até recentemente, Mantega não admitia
que o consumo avançava à frente da oferta e, nessas
condições, produzia inflação de demanda.
Agora, não só vem defendendo o vigor das importações
(que ajudam a garantir a oferta) como a necessidade de contenção
do consumo e da produção para que a economia volte
a se reequilibrar.
Mais previsível
Ao afirmar que "a inflação
no Brasil é menos volátil do que em outros emergentes",
o ministro Mantega está reconhecendo implicitamente outra
verdade: a de que a maior previsibilidade da economia brasileira
foi obtida graças a uma política fiscal mais consistente
e a uma política monetária mais firme.
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