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O protocolo de kyoto e o programa brasileiro de gás natural veicular-pbgnv
 
Milton Luiz Melo Santos*

A realização da Conferência Global RIO+10, em Johannesburgo-África, atraiu o interesse de grande parte da população mundial, em face das discussões relacionadas com as inúmeras agressões que o ser humano vem praticando contra a biodiversidade em nosso planeta.
O crescimento industrial e o conseqüente aumento da demanda de energia tem ocasionado distúrbios significativos em nosso meio ambiente, tais como o conhecido efeito estufa, proveniente dos gases emitidos para a atmosfera decorrentes da queima de combustíveis fósseis.
Esses combustíveis - carvão, óleo e gás natural - suprem, atualmente, 85 % da demanda mundial de energia, segundo pesquisas econômicas e ambientais efetuadas pelo Resources for the Future, com sede em Washington.

A continuidade da dependência dos combustíveis fósseis foi uma das questões mais desconcertantes que as autoridades enfrentaram durantes os diversos debates que foram travados nesse evento. Isto porque apesar dos avanços que a ciência vem obtendo no campo das pesquisas sobre células de combustível e hidrogênio, como fontes de energia, a viabilidade econômica de tais tecnologias ainda

está muito distante dos padrões considerados aceitáveis pela economia mundial. Um dos temas que demandou mais atenção do público em geral, foi a discussão em torno da ratificação do PROTOCOLO DE KYOTO.
Esse documento, celebrado em 1997, na antiga capital do Japão (Kyoto), estabeleceu que os países desenvolvidos teriam de reduzir em 5,2 % a emissão de gases poluentes no período de 2008 a 2012, em relação aos níveis apresentados em 1990.
Para os países que porventura não tenham condições de atender essa meta (no caso, os países ricos e altamente desenvolvidos), o Protocolo criou um dispositivo denominado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo-MDL, que prevê parcerias, onde os países ricos podem financiar projetos nos países em desenvolvimento, voltados para a melhoria do meio ambiente e, em contrapartida, terem direito a uma espécie de desconto em suas cotas de redução dos níveis de emissão de gases poluentes.

A razão de tal mecanismo decorre do fato de que as emissões de gases em qualquer ponto do planeta têm o mesmo efeito sobre a concentração global desses gases e, por conseqüência, a redução de emissões proporciona benefícios independentemente de sua localização.

Assim, ao reconhecer que a redução de emissões de gases é muitas vezes mais cara em alguns países do que em outros, o Protocolo permite que as partes utilizem Emissions Trading Rights para alcançarem suas metas a um custo menor.
Mesmo sem ter havido ainda a ratificação do Protocolo, o mercado de venda de créditos de carbono cresce. Países como a Holanda já se anteciparam à ratificação e compraram créditos no mercado internacional, onde a unidade de comércio é a tonelada métrica equivalente de redução de emissão de CO2.
Na semana passada a imprensa noticiou o financiamento pelo Banco Mundial, da compra de créditos de carbono de uma Siderúrgica de Minas Gerais, pelo valor de US$ 5,4 milhões para o período que vai até 2009.
A propósito, o Banco Mundial calcula o valor do mercado de carbono em US$ 10,0 bilhões ao ano. Segundo alguns especialistas não é exagerado imaginar o Brasil com uma fatia de 10% desse mercado.

O Brasil, como um dos signatários desse Protocolo, durante essa Conferência, buscou assumir uma posição de destaque, não só por ser detentor das maiores reservas florestais do mundo mas, também, por buscar alternativas energéticas menos poluentes, tais como a utilização do álcool como combustível automotivo.
Embora a criação do PROÁLCOOL, em meados dos anos setenta, tenha sido motivada, no primeiro momento, pela crise internacional do petróleo, a adoção do álcool como substitutivo da gasolina era exultada pelos defensores do meio ambiente, em face da redução dos níveis de poluição, principalmente nos grandes centros urbanos.

A montadoras de veículos leves instaladas no Brasil, rapidamente ajustaram as suas linhas de produção, de sorte que poucos anos depois a produção anual de carros a álcool atingia mais de ¾ da produção total.
Posteriormente, com a retomada da situação de normalidade de preços do barril de petróleo, combinada com o aumento da produção interna brasileira e a instabilidade da oferta de álcool no mercado interno, decorrente das flutuações de preços do açúcar no mercado internacional, o PROÁLCOOL foi perdendo credibilidade, de sorte que no início da década de noventa a produção de carros a álcool já era residual.
Agora, com o advento do Protocolo de Kyoto e a criação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo-MDL, o Brasil retoma a discussão do PROÁLCOOL, mediante acordo com o Governo da Alemanha, que se dispõe a pagar parte da conta dos subsídios que o governo brasileiro vai oferecer para estimular o uso de carros a álcool.

A idéia é que o Brasil produza 100 mil carros com motores a álcool, combustível renovável e menos poluente que a gasolina. Como incentivo, o governo isentaria a cobrança do IPI. A redução do preço para o consumidor seria repassada na forma de um bônus de R$ 1.000,00 por veículo. Os R$ 100,0 milhões que o governo deixaria de arrecadar seriam reembolsados pelo governo alemão.
A vantagem da Alemanha, assim como das demais nações industrializadas, é que, ao estimular outros países a reduzirem suas emissões de gases, os países ricos podem adquirir créditos que servem para aliviar as suas metas de redução de CO2, conforme prevê o mencionado Protocolo.
Todavia, o acordo com os alemães só vai sair do papel se o Brasil realmente reativar a indústria do álcool-combustível.

Isso significa que todos os integrantes da cadeia produtiva do álcool têm de estar formal e legalmente comprometidos com o novo Programa, de forma a evitar a falta do combustível nas bombas de abastecimento, tal como ocorreu no passado, quando os usineiros preferiram produzir açúcar ao invés do álcool, em função dos altos preços do primeiro praticados no mercado internacional.

Enquanto as negociações prosseguem entre os dois governos, julgamos que, em paralelo, poder-se-ia abrir um espaço na agenda governamental para se avaliar e discutir a possibilidade de inclusão do Programa Brasileiro de Gás Natural Veicular-PBGNV no já mencionado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo-MDL.
Com a construção do gasoduto Bolívia-Brasil, onde atualmente dispomos de uma oferta de gás natural de 12,0 milhões de metros cúbicos por dia (podendo chegar a 30,0 milhões), e o acentuado crescimento, nos últimos três anos, da frota de veículos movidos a gás (atualmente já contamos com 350.000 veículos movidos a gás natural), o Brasil já ocupa o terceiro lugar no ranking dos países que mais utilizam o gás natural como combustível automotivo.

Além de ser ecologicamente mais limpo do que a gasolina, o gás natural não sofre problemas de adulteração na sua qualidade, dispõe de uma respeitável infraestrutura de distribuição e comercialização e apresenta um diferencial de preço muito expressivo em relação ao da gasolina, motivo pelo qual nos últimos dois anos tem havido um crescimento significativo nas vendas de Gás Natural Veicular- GNV.
Conforme estudo elaborado pela Fundação Getúlio Vargas-FGV, a respeito do mercado do Gás Natural Veicular, a frota de veículos movidos a gás natural no Brasil, até o ano de 2005, será da ordem de 1,0 milhão, o que corresponde a, aproximadamente, 5% da frota total.
Tal crescimento demandará investimentos de aproximadamente R$ 3,5 bilhões, nesse período, por todos os integrantes da cadeia de produção e uso desse combustível, ou seja, Petrobrás, TBG, Empresas Concessionárias de Gás, Empresas fabricantes de equipamentos de compressão, empresas fabricantes de kits e cilindros, Postos de Abastecimento e Empresas Convertedoras.
Ora, se considerarmos os parâmetros do estudo elaborado pelo Núcleo de Tecnologias do Gás Natural ( Instituto Nacional de Tecnologia- MCT), onde cada litro de gasolina emite 2,88 kg de CO2 - o carro a gás natural emite 18% a menos - e cada quilômetro rodado com um carro a gasolina emite 0,7 gramas de CO, contra 0,3 gramas do carro a gás natural, podemos estimar, com base nas hipóteses abaixo, que a conversão de 1,0 milhão de veículos para o GNV reduziria a poluição ambiental nos centros urbanos em 1.892,0 mil toneladas de CO2 e 14,6 mil toneladas de CO, por ano.

Hipótese 1 : os veículos consomem l litro de gasolina para cada 10 km rodados;
Hipótese 2 : os veículos rodam, em média, 100 km por dia, portanto, consomem 10 litros/dia.

Tais números, além de representarem benefícios extraordinários na melhora ambiental e, conseqüentemente, na redução de despesas com tratamento de doenças do aparelho respiratório, permitiriam ao Brasil obter recursos externos, com a venda dos créditos de carbono durante um período de dez anos, por exemplo, em montante de US$ 76,0 milhões, aproximadamente, considerando o preço médio de US$ 4,0/tonelada de carbono, praticado recentemente.

Concluindo, face aos benefícios que o carro movido a GNV acarreta para o meio ambiente e para a saúde humana, comparativamente aos veículos movidos a gasolina, seria altamente recomendável que o próximo governo considerasse a possibilidade de estruturar o Programa Brasileiro do Gás Natural Veicular-PBGNV para, assim como o PROÁLCOOL, ser elegível a receber recursos ao abrigo do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo-MDL, previsto no já mencionado Protocolo de Kyoto.

* Milton Luiz Melo Santos é economista e Sócio-Diretor da ENERGOGÁS TECNOLOGIA, empresa dedicada à conversão de veículos para o Gás Natural Veicular-GNV.

Projetos
O mercado do GNV está crescendo e a cada dia que passa mais cidades aderem ao uso do Gás Natural Veicular, mas para que esse mercado continue crescendo é preciso que os postos tenham uma infra-estrutura adequada.

A utilização do Gás Natural com fim automotivo justifica-se basicamente pela disponibilidade desse vetor energético, em grande quantidade no Brasil, bem como na Bolívia e Argentina...
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